Por A.D Lindsay
Tradução e notas por Gabriel Marvin e Helkein Filosofia
Platão nos deixou sem um tratado sistemático de filosofia, não por ser assistemático: todos os diálogos platônicos são expressões de uma única posição diante da realidade, de um sistema que, embora possa mostrar sinais de desenvolvimento, sempre preserva sua unidade; mas ele o expôs numa série de diálogos, cada um dos quais é completo per se. Neles se apresentam diferentes elementos da vida ou da realidade, ou seja, o ponto de partida e tema da discussão é um problema particular a ser investigado racionalmente. Somente as soluções têm uma unidade comum, pois estes problemas, quando discutidos, retornam a investigação para uma avaliação do relacionamento entre os sentidos e o pensamento — o centro da filosofia de Platão. Entretanto, os cinco diálogos nesse livro foram reunidos por esclarecerem um elemento especial do ensinamento platônico, sua doutrina acerca do lugar e da importância da intuição ou inspiração — ou como quisermos nomear aquele elemento imediato no pensamento que pode ser distinto do ensinável e redutível a regras. Mesmo com propósitos e pontos de vista diferentes, Platão expõe, nestes diálogos, a parte de seu sistema que atraiu a atenção e a admiração de grandes poetas e amantes da poesia e, quando desenvolvida por pensadores posteriores privados da devoção de Platão ao pensamento lógico exato e seu interesse pela ciência, provou ser a fonte dos mais recentes misticismos.
Assim como Platão não escreveu nenhum tratado sistemático de filosofia, também não escreveu estética alguma. Mas os diálogos selecionados apresentam os materiais para uma estética platônica, ou melhor, para uma estética conforme os princípios gerais da filosofia platônica — algo que o próprio Platão teria provavelmente rejeitado. Não devemos nos esquecer que, se Platão, dentre todos os filósofos, mostrou-se preeminentemente o filósofo do poeta e do místico, e se o seu sistema pareceu proporcionar aos amantes da poesia uma explicação para a misteriosa percepção (insight) artística da realidade, ele também foi o filósofo mais insistente na antiga querela entre a filosofia e a poesia e, por conseguinte, sustentou que a arte era uma imitação de uma imitação, algo três vezes mais distante da verdade. Enquanto esta última foi considerada, por outros filósofos, uma atividade importante da mente humana, a ser estudada, à semelhança de outras atividades, de modo desapaixonado e imparcial, Platão raramente se refere expressamente à arte sem a denunciar como uma farsa e um engano. A explicação para esse paradoxo não está distante. Platão denuncia a arte porque sentiu intensamente seu poder. Ele próprio era poeta e filósofo, com a disputa entre poesia e filosofia travada em seu próprio peito. E não podia se dar ao luxo de fazer à arte o duvidoso elogio de chamá-la de um excelente purgante do medo e da piedade ou de uma ocupação útil para o ócio; não podia considerá-la como um estágio necessário no caminho para a plena iluminação que é a filosofia. Sabia que as reivindicações da arte eram imperiosas demais para que ela se submetesse a uma posição de digna estima. Sentia sua exigência por tudo ou nada; e não lhe daria tudo, pois não poderia ser infiel à filosofia, portanto, teria de violentamente dar-lhe nada.
Então, o que pensar desses diálogos e, especialmente, do Banquete e do Fedro, tão aparente e obviamente dedicados ao louvor da inspiração e à expiração do espírito expresso em —
os Poetas, . . .
. . . homens agraciados com os mais elevados dons,
A visão e a faculdade divinas?[1]
Eles podem ser, e muitas vezes são, interpretados como a fé de Platão, o poeta, em contraste com Platão, o filósofo, enquanto vitórias conquistadas pela poesia na disputa com a filosofia, terminando na denúncia da poesia no Livro X da República e no raciocínio lógico fechado do Parmênides e do Filebo, onde o entusiasmo pela beleza parece ter cedido inteiramente ao entusiasmo pela ciência. Aqueles que deploram o resultado da luta, acolhem o Banquete e o Fedro na qualidade de conquistas do verdadeiro Platão, o poeta, alcançadas antes da suposta frieza da velhice ter extinguido o brilho da inspiração nele; aqueles que se regozijam em seu resultado, consideram-nas aberrações da juventude que devem ser perdoadas, mas lamentadas.
Contudo, uma leitura atenta dos diálogos nos obriga a mudar essas opiniões. Não é o caso de Platão apresentar afirmações em relação à poesia que sejam inconsistentes com suas afirmações em outros diálogos. Mesmo no mito do Fedro, onde Platão classifica as almas conforme tenham visto mais ou menos da verdade, ele coloca a alma do poeta — ou do imitador — numa posição inferior.
Tampouco é possível dividir o sistema platônico em elementos poéticos e não-poéticos e dizer: nesses diálogos, ele enfatiza os elementos mais poéticos e, em outros, os mais lógicos de seu sistema. Pois o que sempre foi considerado como o elemento mais poético de Platão — sua teoria das Idéias — é sua doutrina lógica mais importante; e nesses diálogos, muitas de suas passagens que mais parecem brilhar com entusiasmo poético, são estas de grande importância para a sua teoria lógica. A verdade é que, se ele é poético, não é porque esteja subordinando a filosofia à poesia, mas por aceitar o que pode ser chamado de expressão poética do conhecimento. Ressalta-se a importância do elemento imediato intuitivo no conhecimento e na lógica, ao mesmo tempo, em que insiste na argumentação exata e no raciocínio lógico cuidadoso — ainda que faça todo raciocínio depender, em última instância, do insight intelectual e da visão que é imediata. Logo, se quisermos construir, a partir de Platão, qualquer teoria da função mais elevada da poesia, ao contrário da baixa expressamente atribuída pelo filósofo, é preciso segui-lo na sua apreciação da importância lógica do insight imediato e, em seguida, mostrar como a poesia pode, à sua maneira, reivindicar uma parte desta intuição filosófica A última parte do argumento não será platônico, mas pode se basear na descrição platônica da Beleza.
Essa impossibilidade de separação ficará clara se analisarmos brevemente a maneira segundo a qual esses diferentes diálogos abordam nossa questão. O Íon é um diálogo curto, onde nos é apresentado o esboço principal do problema. Íon, o rapsodo, é um grande intérprete de Homero, capaz de influenciar uma multidão inteira com suas recitações. Ele afirma ser o melhor entre os homens enquanto intérprete de Homero; mas, argumenta Sócrates, a compreensão e a interpretação de passagens específicas requerem conhecimento específico, do carpinteiro ou do médico, que Íon não possui. Se Íon pode interpretar Homero dessa forma, não é por meio de conhecimento, mas por inspiração ou loucura. O rapsodo deve, portanto, ser desonesto ou inspirado.
O tema do Banquete é o amor. Sócrates, quando chega sua vez de falar, reproduz o discurso de Diotima, uma mulher sábia de Mantinéia. O amante e o filósofo são conjugados, pois o amor é o desejo de imortalidade na beleza, e assim como a beleza espiritual é mais elevada que a corpórea, a filosofia é mais elevada do que o amor terreno. A visão da verdadeira beleza, descrita em linguagem apropriada à visão mística, é o último estágio de um progresso da beleza sensível particular para a beleza intelectual universal, que inclui em seus estratos mais elevados a beleza das ciências e “muitos pensamentos e noções justos e nobres no amor ilimitado da sabedoria”. No Mênon, começamos pelo lado lógico. Mênon e Sócrates estão buscando uma definição de virtude, quando o primeiro levanta a dificuldade lógica de como essa busca é possível. Como é possível investigar o que não se conhece? Sócrates responde referindo-se a uma verdade que ele ouviu de sacerdotes e sacerdotisas e de poetas, “Píndaro diz a mesma coisa, e muitos outros poetas de inspiração divina”.[2] A verdade é expressa na doutrina da reminiscência, a saber, “procurar e aprender não passa de recordar.”[3] Em seguida, isso é provado por uma análise lógica das coisas envolvidas na apreensão da verdade geométrica. No início do Fédon, Sócrates diz ter sido constantemente avisado em sonhos: “pratica a arte das Musas e te empenha nelas”[4]; e que ele imaginou que “aquele sonho me estimulava a fazer o que estava fazendo, quer dizer, praticar uma arte das Musas, uma vez que a filosofia era a mais grandiosa forma de música e eu me dedicava a ela.”[5] A prova da doutrina da imortalidade, o tema do diálogo, envolve outra prova na doutrina da reminiscência; numa linguagem filosófica poderia ser descrita como um argumento de que a experiência envolve elementos a priori não-deriváveis da experiência. O diálogo prossegue com uma exposição da teoria das Idéias, sendo esta uma importantíssima explicação da principal doutrina da lógica platônica, onde a prova final da imortalidade se baseia na afinidade da alma com as Idéias. Em contraste com o Mênon e o Fédon, o Fedro inicia numa discussão mais próxima da natureza poética.
O objeto formal do diálogo é a natureza da retórica, apresentado pelo famoso discurso em louvor à loucura divina do seguidor das Musas, do amante e do filósofo, um mito no qual a doutrina da reminiscência é novamente introduzida e a visão descrita da verdadeira realidade que todas as almas experimentaram antes do nascimento. A filosofia é a recordação dessa visão e, nessa recordação, a beleza passa a desempenhar um papel especial. Porém, na discussão subsequente da retórica, o verdadeiro retórico é descrito como tendo conhecimento, e seu conhecimento consiste, não em uma lembrança de uma visão anterior, mas no poder de definição e divisão lógica.
Por isso, examinaremos a doutrina do imediato, sem discriminar entre sua importância poética ou filosófica. A passagem relevante no Banquete acontece no discurso de Sócrates em relação ao de Diotima (pp. 210-212). Ela explicou como o amor é o desejo de imortalidade na beleza, e como a beleza da alma é maior do que a beleza do corpo. Insinua, em seguida, que haverá uma revelação mais incomum e avançada. O apreciador da beleza, começando com a apreciação de corpos belos, considerará a beleza de um corpo semelhante à de outro e, sendo assim, a beleza de todos os corpos é uma só. Então, à medida que prosseguir, ele aprenderá a unidade da beleza da alma com a beleza das ciências, até “chegar na ciência desta beleza”.[6] Esta ciência será conhecida após a contemplação gradua, e ordenada de objetos belos: “e, de repente, ele contemplará a maravilhosa natureza da beleza”.[7] A descrição dessa Beleza distingue-a dos objetos belos. Ela é eterna, não produzida, indestrutível, não é como outras coisas parcialmente belas e parcialmente deformadas. Tampouco é, como a beleza dos objetos sensíveis, de alguma forma relativa e, diferente dos pés e das mãos, não pode ser vista: “é eternamente em si, e em si conserva sua forma”.[8] Devemos observar esses pontos nessa descrição e no que se segue. A apreensão dessa Beleza única segue-se do estudo de objetos belos, mas é distinta desse estudo, o progresso rumo a esta inicia-se com a reflexão de que a beleza em um objeto deve ser a mesma que a beleza em outro. Buscá-la é também buscar a unidade nos muitos objetos belos. A apreensão da Beleza é chamada de aparição súbita; no entanto, ela é cuidadosamente descrita para que a aparição não seja interpretada literalmente. Além disso, todas as outras coisas são belas por participarem dela. Em comparação com ela, sua beleza é relativa, vem a ser e é destruída. Ela não tem parte no mundo contingente, portanto, nela o desejo da alma pela imortalidade é satisfeito. Mas quando concluíssemos que o amante dessa beleza verdadeira deve ser como o poeta capaz de —
“Ver todo um Mundo num grão
E um Céu em ramo que enflora
É ter o Infinito na palma da mão
E a Eternidade numa hora.” —[9]
então, nos lembraríamos que a eternidade e a imutabilidade pertencem, para Platão, somente às realidades apreendidas pelo pensamento — e somente a elas, sendo intelectual o progresso em direção a elas —, e não pelos sentidos.
A resposta do filósofo, no Mênon, à dificuldade encontrada pela impossibilidade de descrever o conhecimento como mera aquisição externa ou desenvolvimento interno, tampouco sendo possível discernir, sem grande esforço, o papel desempenhado pelo externo e pelo interno, é que o conhecimento real é a posse eterna da alma. Aquilo que ela sabe, sempre soube. A função dos sentidos e do mundo visível é apenas despertar a lembrança desse conhecimento esquecido. “Ora, em razão de ser a alma imortal e ter renascido muitas vezes, já viu tudo o que há, tanto aqui como no Hades, não havendo o que ela não tivesse aprendido. Assim, não é nada de admirar que tanto sobre a virtude como sobre tudo o mais ela possa recordar-se do que conhecera antes.”[10] Essa é a gloriosa verdade aprendida por Platão com sacerdotes, sacerdotisas e poetas. Mas ela não é aceita como uma solução até que seja provada, mostrando o que está envolvido no raciocínio geométrico executado por uma mente não treinada. A doutrina não significa, portanto, aquilo confessado por Shelley quando diz —
“Eu sabia
Que eu havia sentido o frescor daquele amanhecer,
Banhei minha testa e meus cabelos com o mesmo orvalho frio,
E sentado assim naquela encosta de gramado,
Sob o mesmo ramo, que lá eu ouvira
Os pássaros, as fontes e o oceano
Doce conversa em música através do ar enamorado.”
Com efeito, o outro lado da doutrina da reminiscência é a falta de semelhança e a diferença entre as coisas visíveis que vemos e as realidades inteligíveis às quais elas nos remetem. Quando Platão, no final do Mênon, distingue o conhecimento da opinião verdadeira, dizendo que a reminiscência é apenas de conhecimento, não de opinião correta, em vez de dizer, como seria de se esperar, que quando um homem pensa corretamente e não consegue explicar as razões de sua crença, ele estaria recordando algo aprendido anteriormente, mas não se lembrando de tudo. Nós nos recordamos da causa, e é “o vínculo da causa” que transforma a opinião correta em conhecimento. O Fédon enfatiza essa distinção entre o visível e o inteligível. A passagem da doutrina da reminiscência (pp. 73-77) é muito mais explícita se comparada à do Mênon. Sócrates observa, em primeiro lugar, que a recordação sempre inclui a nota: “O objeto que tenho neste momento diante dos olhos aspira a ser como outro objeto real, porém fica muito aquém dele, sem conseguir alcançá-lo, visto lhe ser inferior.”[11] Então, ele dá por exemplo a igualdade, da qual somos lembrados por meio de pedras, paus e outras coisas; mas a igualdade é “algo diferente de tudo isso”. Pedras e paus iguais às vezes parecem desiguais, mas a igualdade nunca é desigualdade. Segundo o filósofo, ao usar o predicado “igual” para as coisas visíveis, estamos julgando-as por um padrão que não pode lhes ser derivado, uma vez que nenhuma coisa visível revela mais do que uma aproximação da igualdade perfeita. A noção de igualdade perfeita em si deve, então, ser alcançada em outro lugar. Não podemos obtê-la sem os sentidos, mas “é por meio dos sentidos que observamos tenderem para a igualdade em si todas as coisas percebidas como iguais…”[12] Portanto, antes de começarmos a experimentar qualquer coisa, precisamos conhecer a verdadeira igualdade; este argumento que não se limita a ela, mas também se aplica à “verdadeira beleza, bondade, justiça e santidade, e todas estas coisas que, no processo de fazer e responder questões, selamos sob o título de “o real”.[13] Em todo o Fédon, conforme observamos, o argumento afirma a afinidade da alma com essas realidades inteligíveis e imutáveis, as Idéias platônicas. Essa afinidade é a base dos argumentos do filósofo para a imortalidade da alma, mas também implica uma distinção entre alma e corpo, entre o mundo dos sentidos e o mundo do pensamento. É verdade que muitas vezes ele parece descrever a apreensão das ideias em termos emprestados da experiência estética — inevitavelmente —, pois a apreensão filosófica da realidade, embora imediata, só é alcançada ao final de um longo processo reflexivo. Caso alguém não passe por esse processo, a experiência de apreensão intelectual imediata torna-se impossível; para essas pessoas, portanto, Platão deve descrevê-la em formas da única imediatez com a qual estão familiarizadas, a da experiência estética.
Ora, o elemento da imediatez e da intuição é tão preeminente na arte e tão oculto na ciência a ponto de pensarmos, quando Platão sustenta ser imediato todo o conhecimento real, que ele está dizendo que o conhecimento deve ser encontrado na arte e não na ciência. Não há nada mais distante de sua intenção. Se ele descreve a realidade como sendo apreendida de forma vívida e imediata, não deixa de insistir no fato de só chegarmos a essa apreensão transcendendo as limitações do sentido por meio da potência do pensamento. Embora a apreensão seja imediata e auto-evidente, ela é alcançada de um modo específico; estando Platão preparado para descrevê-lo. Essa é a finalidade do expresso de “fazer e responder questões” na passagem citada acima. Trata-se do que o filósofo chama de processo lógico da dialética. Talvez a descrição mais clara do assunto esteja numa passagem da sétima carta. Platão está explicando, num espírito semelhante ao de suas palavras no Fedro (p. 274), por que sua filosofia não pode ser adequadamente expressa em palavras. Ele mostra os defeitos de todas as nossas formas de representar a realidade, sejam nomes, exemplos e definições, todos são defeituosos e podem levar ao erro. Isso não significa conformar-se com a imperfeição do pensamento, mas que devemos testar e examinar todos os nossos pensamentos por meio da dialética. Se fizermos isso, ele diz, após um longo e difícil processo de “esfregar nossas concepções e expressões” e, de repente, o insight e a razão se manifestam, e conhecemos a realidade como ela é. A realidade não pode ser descrita, porque nossa apreensão dela é imediata, mas podemos explicar os meios necessários para essa apreensão.
Platão critica a arte, pois, crê, esta enfatiza e atenta apenas ao lado sensível das coisas, transcendido pelo pensamento e, assim, dificulta a superação intelectual do imanente para o transcendente; ademais, a depura, pois os processos pelos quais esta alcança o imediato não são confiáveis e distanciam-se do percurso lógico cuja função é lograr a verdade. O décimo livro da República trata principalmente dessa primeira acusação. O filósofo, chamando a arte de imitação, a considera preocupada somente em copiar a realidade visível. Algumas artes estão corretamente sujeitas a essa acusação, sendo que a maneira como algumas pessoas encaram todas as artes lhe dá uma justificativa extra. Já no início do décimo livro, a arte é dita perigosa caso sem o antídoto de uma compreensão correta de sua função. Assim como no Íon, Platão está atacando a arte que alega ser um atalho para o conhecimento adquirido pela ciência; e essas críticas são justas na medida em que a verdade da arte seja considerada na sua fidelidade à representação de objetos sensíveis aos quais se refere. As críticas parecem unilaterais porque não há nenhum exame da afirmação que o artista certamente faria, a saber, que a arte não está preocupada em imitar o sensível, mas, por meio do sensível, representa as realidades eternas com as quais a filosofia se preocupa.
Quando trata explicitamente do assunto, Platão declara que as realidades eternas devem ser apreendidas numa única via, a do pensamento árduo, mesmo que, sem dúvidas, existam sugestões de alguma teoria da função da arte que o artista poderia fazer em seus dizeres relativos à Beleza. Para isso, devemos nos voltar para o Fedro, lembrando apenas da restrição de sua crítica à natureza enganosa da arte, jamais à Beleza; em todo o Livro X, a Beleza jamais é criticada.
O mito no Fedro é o segundo de dois discursos dedicados ao amor. No primeiro discurso, Sócrates ataca o amor em nome da razão e do autocontrole, e o segundo é uma retratação solene dessa blasfêmia. O amor pode ser loucura, mas a loucura pode ser divina. Um mito baseado na doutrina da reminiscência explica isso: as almas são levadas, antes do nascimento, para um lugar além do céu:
“A região além do céu jamais foi dignamente cantada por um poeta terrestre, nem nunca o será. A despeito disso, ela o é, como revelarei, pois é necessário que eu ouse expressar a verdade, especialmente porque a verdade é o meu assunto. De fato, a essência de efetiva existência que é incolor, amorfa e intangível, com a qual todo conhecimento verdadeiro está envolvido, contém essa região, sendo visível apenas à inteligência, o piloto da alma. Ora, um intelecto divino, uma vez nutrido pela inteligência e o conhecimento puro, e o intelecto de cada alma capaz de receber o que lhe é apropriado, regozija-se em contemplar a realidade durante um período de tempo, e por meio de sua observação da verdade é nutrido e tornado feliz até que o movimento circular o recoloque no mesmo lugar. Nesse movimento circular ele contempla a justiça, o autocontrole e o conhecimento absolutos, não aquele conhecimento que encerra geração e que varia à medida que é associado com uma ou outra das coisas que chamamos de realidades, mas o conhecimento do que realmente é o que é; e do mesmo modo ele contempla e se nutre de outras realidades eternas, depois do que, atravessando novamente o céu em sentido descendente, ele vai para casa, onde o auriga acomoda os cavalos na manjedoura, alimenta-os com ambrósia e, em seguida, dá-lhes néctar para beberem.”[14]
As almas, então, precipitam-se na terra, esquecendo-se de muitas coisas ao caírem, mas, ao chegarem, elas assumem sua posição real a partir da lembrança da visão: e Platão coloca na primeira classe, a “do filósofo ou amante da sabedoria, amante da beleza, devoto das musas e do amor”.[15] Aqui encontramos a separação entre a arte como busca da Beleza e a arte como imitação, que já observamos. O “poeta ou qualquer um ocupado da imitação” fica inferior, na sexta classe. Platão explica o poder da Beleza mais adiante no mito. A beleza move a alma ao vê-la nesta terra para uma rememoração de sua visão e um desejo pela verdade, porque somente a Beleza, dentre todas as realidades, é a mesma aqui e na região além do céu.
“São poucos, portanto, os que retêm uma adequada reminiscência delas; e eles são tomados de espanto e não conseguem mais ter controle sobre si mesmos ao perceberem urna semelhança daquilo que viram no alto. Não compreendem a condição em que se encontram porque sua percepção não é clara. A justiça e o autocontrole não irradiam luz por meio de suas imagens aqui, nem o fazem os demais objetos pelos quais tem apreço a alma. Somente uns poucos indivíduos, se aproximando das imagens por meio dos imprecisos órgãos dos sentidos, com dificuldade nelas entreveem a natureza daquilo que imitam. Naquela ocasião anterior, contudo, eles viram a beleza fulgurante, quando junto aos abençoados — seguindo nós no coro de Zeus, enquanto os outros naquele de algum outro deus — contemplaram a visão abençoada e espetacular e foram iniciados no que podemos acertadamente classificar corno os mais abençoados dos mistérios, que foram celebrados por nós num estado de perfeição, quando éramos inexperientes nos males que nos aguardavam no porvir e nos era permitido contemplar, como iniciados, as aparições perfeitas, simples, serenas e afortunadas que vimos na luz pura, sendo nós mesmos puros e não inumados nisso que carregamos conosco agora, a que damos o nome de corpo, no qual estamos aprisionados como uma ostra em sua concha.
E basta no que respeita a uma lembrança que me levou a alongar meu discurso envolvido pela saudade do passado. A beleza, como eu disse antes, resplandecia entre aquelas aparições, e desde que descemos aqui” vemo-la irradiando através do mais claro de nossos sentidos; de fato, a visão é o mais agudo dos sentidos corpóreos, ainda que a sabedoria96 não seja vista através dela, pois despertaria um amor terrível se uma imagem sua fosse transmitida por nossa visão tão claramente quanto ocorre com a beleza, o mesmo valendo para as outras realidades de inspiração amorosa.“[16]
Essa passagem, é claro, ocorre em um mito, no qual Platão não pretende falar com precisão filosófica; mas ela expressa uma doutrina que é da essência do platonismo. Para o pensador grego, a filosofia é uma paixão, a apreensão da verdade precisa de qualidades que não são primariamente intelectuais e, especialmente, de uma crença e fé persistentes em realidades que só podem ser apreendidas após um trabalho longo e diligente. Antes de alcançarmos a meta do conhecimento, precisamos acreditar naquilo que ainda não apreendemos, e essa fé é dada pela apreciação da Beleza. Se não é “o fundamento das coisas que se esperam”, é o “argumento das que não se vêem.”[17] Assim, no esquema de educação proposto na República (p. 402), Platão diz que os jovens, ainda incapazes de compreender a razão, são treinados para amar e acolher as coisas belas e odiar as coisas feias, “reconhecendo a celebrando a razão, quando surge; pois para uma pessoa treinada, ela e a razão são apenas um.”[18]
Embora a apreensão final da realidade, que é o conhecimento, seja obra do pensamento e da filosofia, é a Beleza que primeiro estimula a alma a voltar-se para essas realidades imutáveis às quais ela é semelhante. Uma consideração mais aprofundada poderia conduzir-nos a argumentar que, se tal papel pode ser desempenhado pela Beleza, então aprenderemos mais acerca da realidade a partir de uma representação bela, em comparação àquela não bela — e poderia levar-nos a reivindicar um lugar para a arte ao lado daquelas ciências as quais, como diz Platão, usam objetos sensíveis como modelos ou cópias das realidades inteligíveis. Mas o próprio Platão nunca viu a arte assim.
A visão da Beleza, segundo ele, nos faz agir e sentir corretamente em relação às realidades apreendidas apenas pelo pensamento, mas não nos faz vê-las. Sua própria prática da poesia está de acordo com essa teoria, pois os seus mitos são poemas, e ele usa o mito para descrever o que é inacessível ao pensamento, e tem o cuidado de garanti-los enquanto produtores da atitude correta em seus ouvintes, embora não possa assegurar os pormenores. Assim, Platão faz com que Sócrates termine a longa discussão da imortalidade no Fédon com um mito, dizendo:
Afirmar, de modo positivo, que tudo seja como acabei de expor, não é próprio de homem sensato; mas que deve ser assim mesmo ou quase assim no que diz respeito a nossas almas e suas moradas, sendo a alma imortal como se nos revelou, é proposição que me parece digna de fé e muito própria para recompensar-nos do risco em que incorremos por aceitá-la como tal.[19]
Não há espaço aqui para explorar profundamente a enorme influência platônica na poesia inglesa, onde “O Banquete” e “Fedro” desempenharam um papel crucial. No entanto, ao considerar o platonismo de Spenser e dos poetas metafísicos do século XVII, devemos lembrar que essa influência foi mediada pela Itália, através da leitura do filósofo grego com o auxílio de Marsílio Ficino, assim como ele próprio leu Platão com a ajuda de Plotino. O platonismo renascentista foi, em grande medida, uma reação contra o aristotelismo, o que levou a uma ênfase exagerada nas diferenças entre Platão e seu discípulo, com pouca atenção à grande concordância entre eles. O resultado foi um Platão desprovido de teoria lógica, onde suas doutrinas centrais são expressas em mitos. Seria absurdo negar o título de platônico a Plotino, Ficino ou aos Platonistas de Cambridge, pois Platão foi, de fato, a inspiração deles; contudo, compreenderemos melhor o verdadeiro Platão se, em vez de negar as doutrinas que lhe são atribuídas, reconhecermos seu poder e inspiração, lembrando que elas devem ser entendidas de forma compatível com a devoção do filósofo à matemática e à lógica, bem como à sua convicção de que o conhecimento, por mais imediato e infalível que seja, só pode ser alcançado através de um pensamento árduo e paciente.
Texto de introdução para o livro Five dialogues; bearing on poetic inspiration
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Notas:
[1] The Excursion – William Wordsworth. [N.T.]
[6] Citação não encontrada no livro indicado. Uma vez que o autor não cita com precisão nem o parágrafo crítico e nem a edição utilizada para suas citações, usaremos a sigla N.V. para citações não verificadas. [N.E.]
[7] N.V. [N.E.]
[8] N.V. [N.E.]
[9] William Blake: prosa e poesia selecionadas. Seleção, tradução e notas de Paulo Vizioli. São Paulo: Nova Alexandria, 1993. ps.76 a 79 [N.T.]
[10] Mênon 81d [N.E.]
[15] N.V. [N.E.]
[17] Hb. 11:1 [N.E.]
[18] N.V. [N.E.]
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