Anda daí e eu te direi (e tu trata de levares as minhas palavras contigo, depois de as teres escutado) os únicos caminhos da investigação em que importa pensar. Um, [aquilo] que é e que [lhe] é impossível não ser…
Parmênides
1. Introdução e aconselhamento
Confecciono, aqui, um guia de leitura àquele interessado no pensamento dos filósofos pré-socráticos. Entretanto, urge que atentemos que nos livros introdutórios indicados no Conselhos ao Estudante de Filosofia, a saber, No Princípio era a Maravilha e História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média, já há informações acerca dos pré-socráticos; por conseguinte, este guia destina-se ao estudante que, tendo lido o material introdutório, deseje conhecer um pouco mais sobre os antigos e, em especial, os textos que chegaram até nós.
Comumente reclamo da indisponibilidade de textos seminais no mercado brasileiro; mas temo que, desta vez, a carência seja internacional, tendo em vista que a principal coletânea de textos dos pré-socráticos, o Fragmente der Vorsokratiker de Hermann Diels, jaz esgotado mesmo em seu país de origem, na Alemanha — e este que vos fala tentou adquiri-lo. Por outro lado, caso o estudante queira consultar o texto grego dos pensadores antigos, eis o livro ideal, tendo em vista que ele contém todos os textos numa edição crítica e é a edição padrão consultada por todos os autores que trataram os pré-socráticos nos últimos 100 anos — sendo identificado, comumente, como edição Diels-Kranz.
Tendo em vista que boa parte da contextualização das teses advindas dos primeiros filósofos consiste no correto entendimento de seu ambiente cultural, devo fornecer aqui alguns conselhos. Em primeiro lugar, para que tenhamos bem postos os aspectos do pensamento antigo, recomenda-se a leitura de alguns livros sobre história da Grécia antiga ou oque pelo menos que toque no assunto. O largamente recomendado A Cidade Antiga mantém seu posto, mas desta vez também indico os O Cidadão na Grécia Antiga [Claude Mossé] e Paidéia [Werner Jaeger]; não creio que seja necessário muito mais do que isso pois quase todos os livros indicados preocupam-se com o contexto histórico. Em segundo lugar, ainda que o digo aqui o será também nos autores aqui recomendados, urge que vos alerte que boa parte do pensamento antigo foi exposto por vias poéticas, analógicas ou oraculares. Isso quer dizer que será exigido algum esforço mental do leitor para que interprete o nexo analógico dos símbolos utilizados, por exemplo, nos fragmentos de Heráclito para que entenda, de fato, o que ele quer dizer, e é assim que se torna possível que não confundamos, como ocorre em tantos livros escolares, o símbolo da natureza ígnea com o fogo enquanto entidade física. De qualquer forma, é isso que se espera de quem tenha lido ao menos o No Princípio era a Maravilha — ou a resenha que fiz dele.
Evitei como pude, visando alguma acessibilidade, literatura estrangeira [ela poderá ser facilmente encontrada por aquele que se der ao trabalho de consultar as fontes dos autores aqui indicados] e livros há muito esgotados. Evitei ainda o óbvio, digo, citar livros como os início da Metafísica de Aristóteles como fonte para os pré-socráticos, tendo em vista que sua contribuição está citada e comentada na bibliografia aqui disposta. Não proponho ordem alguma para a leitura das recomendações aqui proposta, ainda que seja melhor, como é de se esperar, que se dê preferência à fonte primária [o texto do filósofo visado] e à fonte secundária mais próxima do filósofo em questão [por exemplo, de comentadores contemporâneos ou cronologicamente próximos]. Todos os textos aqui indicados podem, caso assim o leitor o prefira, ser lidos antes ou simultaneamente ao estudo de Platão — ainda que a primeira opção seja a mais indicada por motivos demasiado óbvios.
2. Bibliografia
Como Logos, porém, que é sempre, os homens se comportam como quem não compreende tanto antes como depois de já ter ouvido. Com efeito, tudo vem a ser conforme e de acordo com este Logos e, não obstante, eles parecem sem experiência nas experiências com palavras e obras…
Heráclito
Em relação às fontes primárias, indica-se o Fragmente der Vorsokratiker de Hermann Diels para consulta do texto grego. Encontramos uma ótima seleta de textos — em grego com a tradução do lado — no já clássico Os Filósofos Pré-Socráticos de G.S. Kirk, J.E. Raven & M. Schofield. Podemos encontrar a íntegra do poema de Parmênides no Da Natureza, os textos de Anaximandro no Pensadores Originários e os fragmentos de Heráclito em Heráclito: Fragmentos Contextualizados. É importante ainda que se leia, em especial, dois relatos antigos acerca dos pré-socráticos: o clássico Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, de Diógenes Laércio, e Vida de Pitágoras escrita por Porfírio.
Em relação a comentários, estamos melhor servidos. Urge penas que eu comente apenas sobre um eles, O Mundo da Pólis de Eric Voegelin. Comumente se crê, erroneamente, que a coleção Ordem e História trate de história da filosofia; ela de fato trata, mas não é um trabalho de história da filosofia voltado a nos inteirar acerca das linhas gerais do pensamento dos filósofos antigos. O interesse de Voegelin é descrever, através da análise de símbolos autointerpretativos, os desdobramentos da consciência em seus vários aspectos, em especial o noético e o pneumático; sendo assim, a história da filosofia é antes o material de onde ele retira seu verdadeiro objeto do que seu tema principal. Neste mesmo sentido devo dizer que há certa dose de irresponsabilidade naquele que recomenda algum volume do Ordem e História ao leigo, em especial por ser um livro do Voegelin maduro e, assim, não serve sequer como introdução ao seu próprio autor; mas, se assim o é, como posso recomendá-lo? Assim como ocorre com o Confissões de Sto. Agostinho, que pode ser lido tanto biográfica quanto filosófico-teologicamente, é possível que “recortemos” algo do Ordem e História Vol.II tendo em vista sua decriptação dos símbolos contidos na literatura pré-socrática e, em especial, sua meticulosa explicação da passagem da mitopoética antiga à filosofia e como a segunda antes engloba do que substitui a primeira. Sendo assim, recomenda-se a leitura focada apenas em seu aspecto histórico; o conteúdo total do livro exige muitos pressupostos.
Avisos dados, eis a bibliografia indicada.
A. A. Long (Org.) — Primórdios da Filosofia Grega
Antoine Fabre-D’olivet — Os Versos Dourados de Pitágoras
Carlo Rovelli — Anaximandro de Mileto ou o Nascimento do Pensamento Científico
Charles H. Kahn — A Arte e o Pensamento de Heráclito
Charles H. Kahn — Pitágoras e os pitagóricos
Eric Alfred Havelock — The Literate Revolution in Greece and its Cultural Consequences
Eric Voegelin — O Mundo da Pólis
Franco Ferrari — O Exercício da Razão no Mundo Clássico
Giorgio Colli — A sabedoria grega Vol. I
Giorgio Colli — A sabedoria grega Vol. II
Giorgio Colli — A sabedoria grega Vol. III
Giovanni Casertano — O Prazer, a Morte e o Amor nas Doutrinas dos Pré-Socráticos
Giovanni Reale — História da Filosofia Grega e Romana Vol. I: Pré-Socráticos e Orfismo
Jonathan Barnes — Os Filósofos Pré-Socráticos
John Burnet — A Aurora da Filosofia Grega
Néstor Luis Cordero — Sendo, Se É: A Tese de Parmênides
Richard D. McKirahan — A Filosofia Antes de Sócrates
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