Por Edward Feser
Tradução de Helkein Filosofia
Tendo examinado, recentemente, as opiniões de Hume acerca da indução e da causalidade, é chegada a hora de conferir seu tratamento dos milagres, ou, para sermos precisos, a leitura, por Antony Flew, dos argumentos humeanos na introdução à edição Open Court Classics do ensaio Sobre os Milagres. Podemos adiantar que a análise de Hume é, como de costume, problemática.
Hume, conforme aponta Flew, visou defender uma posição antes epistemológica do que metafísica. Ele não postula que milagres são impossíveis (mesmo que não creia em sua ocorrência), mas que não podemos justificar a crença de que qualquer milagre tenha ocorrido.
A razão disto, comenta Hume, é que um milagre implica, supõe-se, a anulação d´uma lei da natureza; entretanto, qualquer evidência de que uma regularidade é uma lei da natureza é, ipso facto, [evidência] de que ela não foi anulada, enquanto evidências de que fora [anulada] são, ipso facto, de que ela não é, portanto, lei da natureza. Segue que a definição de milagre enquanto anulação de uma lei natureza é, embora coerente n´uma perspectiva metafísica, não é da epistemológica. Não temos quaisquer boas razões para crer que regularidades sejam tanto leis [naturais] quanto passíveis de nulidade.
Um entre os problemas deste argumento, observa Flew, é ser complicado de conciliar com o restante da doutrina de Hume, pois pressupõe que uma lei da natureza valha como necessariamente objetiva. O cerne da questão aponta (por exemplo) a impossibilidade d´uma ressurreição dos mortos, de modo que tal evento exija uma causa sobrenatural; no entanto, Hume se compromete com a tese de que, na natureza, não existe objetividade necessária — eis, a saber, um dos resultados de sua negação da causalidade. Enquanto referente aos fatos objetivos, qualquer coisa pode, em princípio, ocorrer: o pão que nos serviu uma vez pode envenenar na outra, a água pode congelar a 900 fahrenheit, etc., tudo baseado na tese de que nossa descrença nessas coisas é fundamentada antes de projeções e expectativas do que em fatos objetivos. Isto posto, por que não deveríamos julgar, considerando a concepção humeana de causalidade, que milagres não podem ocorrer? Caso alguém esteja convencido da veracidade da posição humeana, não deveria, portanto, crer que milagres por vezes ocorram?
Flew lida com este problema propondo que o ignoremos durante a avaliação do argumento contra os milagres; parece, à primeira vista, algo descabido, mas [Flew] não o faz sem razão. Poderíamos dizer: “os crentes em milagres e outros que não seguem Hume acreditam em necessidades objetivas; resulta que devem considerar o argumento humeano independente do que o próprio Hume afirme sobre a necessidade”. No entanto, não creio que isto sairia da boca de um humeano; uma argumentação humeana consistente, parece-me, exige a desistência do argumento contra os milagres, e isto pelas razões antepostas. Se tornamos a necessidade relativa ao observador, então, em prol da coerência, é melhor estarmos preparados para concordar com todas as bizarrices que acontecerem na realidade extra mentis, inclusa a intervenção divina no curso do mundo.
Portanto, para salvar o argumento humeano contra os milagres, seria necessário descartar sua concepção sobre a causalidade e admitir a existência de necessidade objetiva na natureza. Entretanto, isto nos leva ao segundo problema do argumento de Hume, um que Flew não aborda: o pensador pressupõe que a caracterização de uma lei da natureza consiste em tê-la como regularidade sem exceção. Assim, caso eu afirme a lei de que A´s são seguidos por B´s, então isto implica, de acordo com Hume, que na ordem do mundo, todo A seguir-se-á por B. Por isto ele crê que haja uma contradição quando alguém afirma haver evidência de que algo seja uma lei mas que também foi (n´algum momento) anulada, pois a evidência de sua anulação é, ipso facto, de que ela não é sem exceção.
Todavia, a crença n´uma necessidade objetiva na natureza não implica na de regularidades sem exceções. Uma afirmação, feito a de que B´s seguem A´s pode ser interpretada como se A´s possuíssem poder causal sobre B´s de forma que tal capacidade seja ativada somente em certas condições. Se tais requisitos forem cumpridos, B´s seguirão A´s; mas nada disto tolhe a idéia de exceções, pois não é incoerente pensar que haja evidências de que essa regra foi anulada num caso específico. É claro que, nesta interpretação, um B não seguir um A não implica num milagre; importa apenas que isto reforça a concepção de que não há incoerência epistêmica na afirmação de que determinada regularidade, enquanto lei, nem sempre se mantém, algo independente de seu emissor defender ou não milagres.
Há, ainda, um terceiro problema com o argumento humeano. Flew, seguindo Hume, atenta que, ao avaliarmos afirmações históricas, devemos utilizar nosso conhecimento prévio do funcionamento do mundo. Portanto, sabendo que pessoas mortas assim permanecem, urge levar isto em conta ao examinarmos a afirmação histórica da ocorrência de uma ressurreição. Nisto, se sabemos que pessoas mortas permanecem assim, então há motivos céticos contra o relato d´uma ressurreição. Este é, segundo Flew, o cerne da contribuição humeana. Isto é correto até certo ponto, e não é aquele visado por Flew ou Hume. Eles parecem crer que o ponto é suficiente para justificar um ceticismo geral contra os milagres, mas isto não acontece: tudo depende do que está incluso na esfera que chamamos de “conhecimento acerca do funcionamento do mundo”.
Suponhamos que não haja razões para crermos que exista um Deus providente ou qualquer aspecto incorpóreo na natureza humana capaz de sobreviver à morte do corpo. Tenhamos ainda que encontremos, n´algum texto histórico, a afirmação de que tal pessoa ressuscitou, mas que este não forneça contexto algum que torne dito evento inteligível: sem registros de pessoas que creram na ocorrência da ressurreição, nem de que o ressuscitado tenha predito seu retorno da morte, nem qualquer corroboração, feito a de um cadáver desaparecido; em suma, que o relato cause a impressão de que foi um evento aleatório, anômalo, sem qualquer impacto sobre eventos posteriores ou precedente que levasse alguém a esperar por ele. Neste caso, tendo em conta que sabemos, em geral, que pessoas mortas assim permanecem, é razoável concluir, feito Hume e Flew, que a história da ressurreição é falsa e seu descarte pelos historiadores é seguro. Até aqui, tudo bem.
Suponhamos, por outro lado, que há fundamentos independentes e sólidos para crermos que Deus existe, que as pessoas possuem almas imortais que sobrevivem a seus corpos e que podem, em princípio, voltar a eles caso Deus queira e assim por diante. Tenhamos ainda que não apenas nos deparamos com o relato de uma ressurreição, mas que o ressuscitado previu tal acontecimento, que muitas pessoas da mesma época creram nisto e também se dispuseram ao sacrifício em prol de sua crença; que o túmulo do sepultado foi encontrado vazio, etc. Considerando tais fundamentos, não é mais razoável descartar, de imediato, a alegação d´um milagre. O registro pode ser falso, mas urge considerar as evidências com cuidado antes de concluir, peremptoriamente, sua invalidez – feito Hume e Flew crêem ser lícito.
Flew, considerando uma objeção parecida, responde ao que apela à revelação divina a fim de justificar a posição de que há um Deus providente que tal afirmação põe seu defensor num argumento circular. Nisto, aponta que é ilícito usar a alegação de um milagre como evidência da revelação e a revelação como evidência a favor da crença em milagres.
Caso não fosse um espantalho, tal resposta seria, de fato, circular. O defensor dos milagres não precisa apelar para a revelação divina a fim de justificar suas alegações de um conhecimento prévio; no cenário que descrevi, o foco consiste em argumentos filosóficos a favor da existência de Deus, da imortalidade da alma, etc. e, desde que sejam estas as informações postas em pauta, não há circularidade alguma (é claro que os argumentos em questão devem ser funcionais e seu sucesso é controverso; creio que funcionem, mas a presente questão refere-se apenas à ausência de uma circularidade).
Alguns apologistas procuram defender a ressurreição de Cristo sem, em primeiro lugar, fundamentar-se na teologia natural e na antropologia filosófica, algo que considero errado, ao menos n´uma abordagem geral da apologética cristã. Como discuti alhures, o percurso correto é o da apologética clássica, que se inicia num trabalho de natureza puramente filosófica – aquele referente à existência de Deus, à imortalidade da alma, à lei natural referente à moralidade, etc. – antes de lograrmos afirmações especificamente cristãs, posto que é neste contexto, bem compreendido, que elas recebem sua força e inteligibilidade. Não afirmo, porém, que não existam procedimentos alternativos; num exemplo óbvio, se um filósofo naturalista se depara com um cadáver apodrecido e, sentando-se em frente, observa sua carne reconstituir-se de maneira que o corpo levante e fale, seria obviamente tolo se dissesse: “ora, isto pode realmente estar acontecendo, mas antes preciso ler alguns livros de teologia natural para conferir os argumentos a favor da existência de Deus”. Em vez disso, após tal experiência bizarra, ele repensaria suas convicções.
No entanto, pouquíssimas pessoas estiveram em situações tão dramáticas; portanto, quanto à apologética em geral, o percurso correto é iniciado no estabelecimento, sob fundamentos puramente filosóficos, de um escopo metafísico que forneça inteligibilidade e plausibilidade aos milagres. De qualquer forma, o argumento humeano recebe a força que Flew lhe atribui apenas num escopo naturalista: caso reunamos motivos para crer que o naturalismo é falso, então seu poder de persuasão se esvai e passamos a considerar, caso a caso, as evidências de milagres, em vez de, segundo o desejo de Hume, descartar todas num bloco.
Para mais informações acerca da natureza e o contexto metafísico próprio para o exame dos milagres, favor consultar o capítulo 6 de meu A Última Superstição.
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