- Introdução
Elenco aqui uma tentativa de guia de leitura para Aristóteles. Ele é baseado na leitura de livro por livro e também na opinião de comentadores diversos, alguns deles citados por aqui com certa frequência, como o Enrico Berti. Alerto, em especial, que não sou um especialista em Aristóteles: no máximo sou um fã ou um leitor que gosta muito do que leu; então que minha opinião posta aqui não seja tomada como um decreto absoluto. Exponho logo abaixo das razões que me fizeram organizar o guia desta forma em vez de simplesmente seguir a listagem de Bekker.
Gostaria ainda de relembrar que Aristóteles foi aluno de Platão e procura, principalmente, discutir e avançar as teses de seu professor antes de colocar as suas próprias; sendo assim, é extremamente inteligente ler Platão primeiro.
- Razões
Ética a Nicômaco e Ética a Eudemo são motivo de polêmica; ambos os livros compartilham muito de seu conteúdo e então discute-se qual é mais antigo ou qual foi rascunho de qual. O dado é que ambos chegaram a nós. O Ética a Nicômaco é muito mais lido e citado, então soa melhor que seja lido prioritariamente. Por outro lado, o estudioso de Aristóteles inevitavelmente lerá os dois. De qualquer forma, listo ambos para fins de completude do guia. Por outro lado, Aristóteles mesmo trata, por exemplo, no Órganon, que muitos erros filosóficos — como negar o princípio de identidade — advém de certa falta de educação; sendo assim, dado ser o livro mais amigável do corpus e por conter muitos temas úteis à lendária (sic) aquisição de virtudes, o Ética a Nicômaco desponta como o melhor livro para conhecer Aristóteles.
Talvez o leitor ache esquisito o A Política logo após o Ética a Nicômaco. Mas o dado é que ambos os temas são muito unidos em Aristóteles e os tratados foram escritos como trigêmeos, digo, hoje em dia são apenas gêmeos dado que o Constituições foi perdido. De qualquer forma, a leitura do Política serve antes de desestímulo do que estímulo ao interessado precocemente no tema, dado que ele mostra que “o buraco é bem mais fundo do que parece.”
Dito isso, a Política não é constituída por textos isolados na obra conservada de Aristóteles. Eles são, pelo contrário, a expressão parcial de uma filosofia que procura primeiramente, nas Éticas, mostrar racionalmente que gênero de Atividade responde de modo satisfatório às preocupações imanentes a todas as “coisas humanas”.
Richard Bodeüs — Aristóteles, a Justiça e a Cidade p.12–13
Em substituição ao perdido Constituições listo o pedaço que sobrou, a saber, a Constituição de Atenas. Não creio que seja um livro essencial ao interessado mediano em Aristóteles; por outro lado, o interessado em certa especialização inevitavelmente lerá tudo. E o Tratado de Economia depois da Política? Listo ele logo após a Política para que se encerrem os “assuntos sociais” tratados por Aristóteles.
Como assim duas Retóricas? A realidade é que discute-se se a Retórica a Alexandre é mesmo de Aristóteles! De qualquer forma mantenho sua listagem, novamente, para fins de completude. E como assim a Retórica depois da Ética? Devo responder, no caso, que Aristóteles mesmo nos aconselha fazer assim no começo da Retórica, que, a saber, contém boas páginas falando de… ética. Aristóteles cria que a boa retórica só podia florescer naqueles que já tinham bastante experiência com o tema que pretendem tratar. Sendo assim, obedecemos o “dono” do guia. Caso haja reclamações, recomendo atentar à “fenomenologia” que Aristóteles fez do “reclamante”:
Quanto ao caráter dos jovens, cumpre dizer que são inclinados aos desejos intensos e capazes de satisfazê-los indiscriminadamente. No tocante aos desejos físicos, tendem mais para os desejos sexuais, não sabendo como dominá-los. São volúveis e não tardam a se aborrecer com o que desejaram; quanto mais violentos são seus desejos, menos duram; seus impulsos são entusiásticos, mas sem raízes e efêmeros, como os acessos de fome e sede dos enfermos. São coléricos e destemperados, geralmente cedendo aos seus ímpetos. São subjugados por seu ardor. Devido ao seu amor pelas honras, não são vítimas do desdém e indignam-se se julgam ser objeto de uma injustiça. Amam as honras, mas ainda mais a vitória, pois a juventude é ávida de superioridade, e a vitória constitui um tipo de superioridade. Honras e vitória os tentam mais do que o dinheiro, qual têm em pouquíssima conta, não tendo apreendido ai e significa a sua falta, como testemunha que Pítaco dirige a Anfiarau. Veem mais o lado bom das coisas do que o mau, já que não testemunharam ainda muitos exemplos de maldade. Também são crédulos porque não foram ainda muito enganados. Estão saturados de ditosas esperanças; assemelham-se aos indivíduos tomados pelo vinho, como eles mantêm o sangue aquecido, mas isso por determinação da natureza e porque não experimentaram ainda muitos reveses. Vivem de esperança a maior parte do tempo, e não de lembranças, já que a esperança diz respeito ao futuro, ao passo que as lembranças concernem ao passado, sendo que para a juventude há um longo futuro diante de si e pouco passado. Nos primórdios de nossa vida nada temos para recordar, ao passo que tudo podemos esperar. Os jovens são fáceis de ser ludibriados pela razão que mencionamos relativa às suas amplas expectativas […] amam com excesso, odeiam com excesso e sua postura em todas as situações é excessiva. Julgam-se oniscientes e sustentam muito convictamente suas opiniões, o que representa ainda uma das razões de seus excessos em tudo.
Se já tem o Órganon, qual o motivo da listagem do Categorias e Da Interpretação em separado? Fiz isso por serem duas edições excepcionais que vem acompanhadas de ótimos estudos introdutórios e explicações diversas. Como detentor das duas edições, não poderia deixar de recomendar.
Como assim a Física antes da Metafísica? Relembrando Schopenhauer, deve-se ter em mente que a metafísica surge quando as possibilidades da física se esgotam; só aí surge a pergunta radical: qual a causa de tudo isso? E então vamos “para além da física” e investigamos sua estrutura de possibilidade. É esse processo de superação, que em Platão é prefigurado na metáfora da segunda navegação, que levou Aristóteles a compor o conteúdo de sua Metafísica. Há uma boa discussão acerca disso na primeira Disputa Metafísica de Suárez que traduzi e disponibilizei por aqui.
E os tratados menores? Do Céu, Parva Naturalia e Da Geração e Corrupção? Não creio que o leitor da Física necessite ler os dois primeiros; por outro lado, não tem como fugir do terceiro pois o tema é crucial para o entendimento do funcionamento das causas e também de algo muito esquisito para o leitor moderno, a saber, sobre a corrupção da substância. De qualquer forma, Aristóteles é sempre bom: por exemplo, no Do Céu temos a prova aristotélica de “rotundidade” da Terra, algo muito interessante num tempo onde é moda acusar autores antigos de “terraplanismo”. O De Anima foi posto antes da Metafísica e depois da Física por estar no meio do caminho, digo, um metade do livro é praticamente um tratado de biologia e a outra belisca a metafísica — sendo que entre essas duas metades ainda tem mais uma que é de psicologia!
- Edições
Listo abaixo as edições que li. De qualquer forma, para além das edições lidas, urge citar edições consultadas. Para a Metafísica, costumo consultar a edição muito querida, aquela traduzida e comentada por Giovanni Reale em 3 volumes; para quem quiser adquirir essa edição em vez da listada, não há problema algum. Costumo consultar ainda o Comentário à Metafísica de Aristóteles (3 volumes) por Sto. Tomás de Aquino, dado que ela contém tanto o comentário quanto o texto aristotélico baseado na versão de Guilherme de Moerbeke. Há ainda duas edições, da editora Madamu, da Ética e da Política, ambos ótimos, que podem ser adquiridos sem problema algum.
Dadas as razões, eis o guia.
- Ética a Nicômaco
- Ética a Eudemo
- Política
- Constituição de Atenas
- Tratado de Economia Doméstica
- Poética
- Retórica
- Retórica a Alexandre
- Categorias
- Da Interpretação
- Órganon
- Da Geração e Corrupção
- Física
- Do Céu
- Parva Naturalia
- De Anima
- Metafísica
Comentários de Aristóteles
- Enrico Berti – As razões de Aristóteles
- Enrico Berti – Estrutura e Significado da Metafísica de Aristóteles
- Enrico Berti – Perfil de Aristóteles
- Enrico Berti – Aristóteles: Pensamento dinâmico
- Enrico Berti – Novos Estudos Aristotélicos vol. I
- Enrico Berti – Novos Estudos Aristotélicos vol.II
- Enrico Berti – Novos Estudos Aristotélicos vol.III
- Giovanni Reale – Introdução a Aristóteles
- Giovanni Reale – História da Filosofia Grega e Romana Vol. IV
- Jonathan Barnes – Aristóteles [companion]
- Marco Zingano – Sobre a Ética Nicomaqueia de Aristóteles
- Maurizio Migliori & Arianna Fermani – Platão e Aristóteles: Dialética e Lógica
- Philipp Brüllmann – A teoria do bem na “Ética a Nicômaco” de Aristóteles
- Rémi Brague – O Tempo em Platão e Aristóteles
- Richard Bodéüs – Aristóteles: A Justiça e a Cidade
- Thomas Davidson – Aristóteles e os Ideais Antigos da Educação
Sto. Tomás de Aquino – Comentário à Física de Aristóteles: Tomo I
Sto. Tomás de Aquino – Comentário à Física de Aristóteles: Tomo II
- Ursula Wolf – A “Ética a Nicômaco” de Aristóteles
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